sábado, 19 de maio de 2018

Palavra

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à espera de um nome
a coisa de mãos imensas
e olhos extraordinários
desprende-se dos ossos
e espalha pela garganta
a sede de que é feita

digo a ela: um nome,
meu bem, é nada
é sebo de vela no copo
estrada sumindo no olho

a água da chuva
é que inventa o cântaro

palavra
a gente inventa pra silenciar


terça-feira, 15 de maio de 2018

Tudo

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do lado de fora,
isso a que chamávamos sonho:
ele cosendo minha carne
eu molhando suas mãos

é de ouro o nada, dizíamos
de corpo e marcha a fera
que não se sabe extinta

do lado de dentro,
entremundos,
isso a que chamávamos tudo.

sábado, 14 de abril de 2018

Transiberiana


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quando chove
penso em fechar a porta
dar vez ao peso
cobrir as frestas
até o osso
mas a verdade
é que poetas mentem
sei porque dormi no trem
e acordei em Vladivostok
saltando toda janela
varrendo todo entulho
abrindo toda saída
te vendo no fim do mundo


sábado, 31 de março de 2018

Bala


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não quero mais
que a face escura da palavra
sua língua ardilosa e torpe
subindo a escada de incêndio
girando o trinco da porta
tocando o vazio da pele
que não está

depois,
sua hora de névoa e sono
sua carne amorosa e lenta
deitada num banco de parque
rindo da pressa dos homens
ouvindo o estrondo da bala
que arranha aferra explode
e nunca entrará

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Inverno


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cortinas segredam desejos
biombos separam silêncios
espelhos saúdam desertos

há casas
que guardam um inverno


Aldeia


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é preciso que o poema
atravesse de vez a noite
e possa enfim dizer das pedras
que eu guardava entre os dedos
e deixei sobre o chão 
de minha aldeia

há tempo que não espero
um céu de delicadezas
sobre os meus ombros
mas neste exato instante
tenho os olhos bem abertos
e o coração perto do fogo

há flores que pedem
um cubo de gelo
em troca de permanência

eu só peço 
alguma sede
alguma sorte
e todo espanto

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Pele


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a verdade
é que meu ombro não comporta
um pássaro negro

já tenho este mapa
tatuado em minhas costas
este céu de linhas vermelhas
este corpo tornado templo
de todo desejo e selvageria

e você sabe:
palavra alguma detém a jaula
palavra alguma impele o voo
palavra alguma alcança a porta

é sempre do olho o último grito 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O impossível

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em algum lugar
deste minúsculo planeta
os dias são mais secos
e o amor já não corta tão fundo

aqui, no entanto
demora-se o fio sobre a palavra
avulta-se a língua sobre o fogo
(é quando chove torrencialmente)

em algum lugar
deste nosso imenso universo 
estende-se tórrido
abrasa-se breve
desfaz-se esplêndido
o impossível planeta

segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

O invisível

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era um tempo
de desaparecimentos

entre meus olhos e os teus
o devir de um corpo negro
no colapso de uma estrela

só depois saberíamos
que as coisas mais belas
permanecem invisíveis

não havia, ainda,
o coração.

quinta-feira, 30 de novembro de 2017

Nós


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é assim
desde que chegamos
eu e meu outro
desesperando
a única hora
o último dia
a fúria de uma estrela
repetindo
repetindo
repetindo
o primeiro silêncio

desde que estamos
meu outro e eu
não há memória sem corpo
não há noite sem olhar


sábado, 18 de novembro de 2017

Fio


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quando ele pisou aqui
eu tinha os olhos gastos
a carne debruçada sobre o fio

cortava em silêncio
a pele dura do coração

segunda-feira, 13 de novembro de 2017

Vão

El secreto de sus ojos (Juan José Campanella/2009)


isso que dissemos
quando abrimos os olhos
se ao menos banisse do corpo
o barulho incessante dos órgãos 
se ao menos coubesse
no vão entre as costelas
mas há coisas que excedem
a linha dura da linguagem
feito ossos que abrissem
janelas contra a pele
(todas a dar pro fim do mundo)
cada vez que respondo
à pergunta em teus olhos

terça-feira, 17 de outubro de 2017

O olho

Imagem do filme "Blade Runner" (1982) - via Google


dar um nome
à sombra larga em teus olhos
e desde um quarto escuro
devorá-la inteira:
músculo, lágrima, fome
mil páginas belas e nuas
às margens do teu corpo

prender-me
à espiral do teu olho
e desde o ponto mais alto
dizer-me em tudo
no exato instante
em que entre teu olho
e o mundo
tudo se desloca

sexta-feira, 22 de setembro de 2017

O mundo

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uma mulher
que é feita de várias
deseja o que desejo:

o doce da palavra
o vidro da palavra
o nada da palavra
tamborilando entre os lábios

das coisas inomináveis
que perdemos um no outro
o mundo, amor

o mundo


domingo, 13 de agosto de 2017

Nomes

Imagem: Balneário dos Prazeres - Pelotas/RS - década de 50


depois de tudo
detrás daquela ruína
o altar que vi quando menina
ainda guarda os olhos de meu avô

aqui está o meu coração:
este amontoado de palavras
extraordinariamente pequenas
a dizer as coisas mais fundas

aqui,
nas duas notas que escuto
no que andamos distraídos
sobre o ouro que escondemos
antes mesmo da erosão

há um nome para cada coisa nesta tarde:
o misterioso vazio no centro do tronco
a sombra de tua mão sobre o meu ombro
a imensa lagoa que vai dar no mar


quarta-feira, 28 de junho de 2017

Sonho


Imagem: Daniela Delias


ele anda sobre meu sonho
com a força de mil homens
e molha os meus olhos
quando me tem
a marchar entre as pedras
à margem do esquecimento

repara: ele agora
é o mar de meu sonho
e quando se põe
a dizer meu segredo
é água que me bate à nuca

domingo, 11 de junho de 2017

Linha

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perdida toda palavra
haveria ainda
um anjo tatuado
entre teu nome e o meu
e quando a beleza impiedosa
de sua imensa asa escurecida
partisse de vez
a pequena linha escondida
entre teu nome e o meu
perdida toda palavra
haveria ainda
a delicadeza inequívoca
dos que se movem lentamente
em frente aos leões

sábado, 27 de maio de 2017

Sobre a águia e o cão





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aqui estamos:
entre o amor e a barbárie
tua pele, deposto o couro
exposta à fome
de um cão sem dono

daqui avistamos
as fendas que velam os cascos
os pequenos animais marinhos
as barras de prata escondidas
milhares de metros
abaixo da superfície

enquanto isso
um pouco mais acima
um zepelim de chumbo
circunda a águia
que julgávamos extinta
partindo sem dó
as entranhas
de uma manhã silenciosa

sexta-feira, 28 de abril de 2017

Pão

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alguma coisa arranha seu lábio
e corta o canto de sua boca
e você pensa: é o frio
o fio súbito e displicente 
de uma lâmina de papel

então você toma 
a folha entre os dedos
e com uma pequena parte
alimenta o fogo
e você diz: é só o corpo
meu bem, é só o corpo

é quando guarda 
o pão sob a língua
e come a própria espera


sábado, 22 de abril de 2017

A marcha

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move o pequeno corpo
pela linha extrema
de um eixo invisível

ergue-se sobre as horas
fosse inteira
aquele lábio entre os dentes
aquele cerco de fibras e ossos
devastando a tempestade

sabe deus do que é feita
o que molha quando anda
o que cala quando goza

mas nunca
do que se evade

domingo, 16 de abril de 2017

Rio


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agora que não há noite ou segredo
digo a ele que olhe calmamente

desde o último relógio
nada se prende às paredes:

casa é barco olhando o rio
tempo é casa abrindo a gente


quarta-feira, 29 de março de 2017

Curva

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e se em vez de arranhar o espelho
eu pusesse a mão sobre a nuca
e ante a curva do meu ombro esquerdo
o amor escorresse lentamente?

e se em vez de partir
mil flores de nada 
mil versos de quando
mil cacos em tudo
teus dedos pudessem
toda sombra todo muro
toda estrada todo monte

empurraríamos a pedra?


segunda-feira, 27 de março de 2017

Ao homem diante da pedra

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mordo minha própria cauda
minha língua, irmão, é de fogo

guarda essa fome em tua carne
crava essa noite em teus olhos:

são doces e largos
os lábios da serpente




sábado, 11 de março de 2017

Asa

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tenho entre as mãos
um pássaro morto

digo a ele que voe
que coma os olhos do inseto
que beija sua asa esquerda

não há dor ou espanto:
ninguém aqui nunca soube
o que é um pássaro


terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Brio

Imagem:
Illustrated London News, 1915. (Photo by Hulton Archive)

Para Ana

é verdade que ainda sangro
e que às mulheres
por brio ou obscuridade
é dado sangrar em silêncio

mas veja minha irmã e eu:
a carne exaurindo a noite
as luzes todas acesas
o coração ruidoso

se agora canto
é porque desaprendi
a morrer primeiro

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Roda

Marcel Duchamp - Roda de Bicicleta (1913)


há este pequeno círculo 
de lábios e pernas
girando as horas
acima de teus ombros

são duas, três voltas
mil vozes nuas
mil passos cegos
a dar em coisa alguma

deste pequeno círculo
sou o furo, a sombra
o olho que cobre a fresta

não sei se escapo
ou espio o mundo

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Moedas

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inútil dizer da escuridão
a forma como afirma sua solidez no mundo

agora, por exemplo
um menino grita 
à mulher que o deixa
entre rastros de silêncio

agora, tão perto
o menino chora
e atira pro alto 
um punhado de moedas
- não preciso delas, ele diz
não preciso, filha da puta

inútil dizer que a cidade vive
quando o que mais me invade
é o cheiro tardio dos peixes

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Folha

Imagem: Daniela Delias


não diríamos nada
sobre os velhos talheres
ao lado da carne nova
que devoraríamos aos poucos

mas ele sabe: nada nunca é novo
nem esta minúscula folha
nascida agora no alto do tomateiro
nem esta ilusão ruidosa de concha
sobre o mar que nunca estará

e entre todas as coisas não ditas
haveríamos de romper a carne
e erguer antigos copos
enquanto pudéssemos calar
ao beber das mesmas vinhas


quarta-feira, 1 de fevereiro de 2017

Refúgio

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veja bem: é preciso
um pouco de ternura
e alguma eloquência
um topo de mundo pro salto
uma língua estendida pro gozo
uma carta em que alguém diga
nenhuma sombra em meus olhos
nenhuma casa em meu nome
nenhuma dor por refúgio
olha: deito-me aqui


quinta-feira, 26 de janeiro de 2017

Frestas

Imagem retirada de https://pixabay.com/p-695010/?no_redirect


no centro da sala
o que não está
ocupa agora o imenso espaço
entre a mão e a xícara

posso vê-lo também
entre os pratos
atrás da pilha de roupas
preso aos botões e agulhas
desfazendo a mala
estancando o sangue

não posso dizer se o amor
é o que permanece ou a falta

há coisas que existem
profusamente             
na desmesura das frestas
em que não estão


domingo, 22 de janeiro de 2017

Entre

Imagem: Daniela Delias


a fera repousa agora
no imenso deserto que invento
entre a boca e o colo

mas quando suas garras
cruzarem o escuro
abrirei a porta
e beijarei seus olhos

até que me queira
até que me cale
até que me diga

tenho, tenho que acordar


quarta-feira, 11 de janeiro de 2017

Mapa

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o deus em sua boca
crava de mundo a falta
cobre de corpo a casa
jura ventanias, rebeliões

e quando digo
- vê, é noite ainda
o deus em sua boca
abre-se mapa-múndi, avenida
e guarda entre seus dentes
as sombras de meu antigo nome


quarta-feira, 4 de janeiro de 2017

Dezembros

Imagem: Daniela Delias


enquanto nos abríssemos com as mãos
moveríamos os olhos em direção à tempestade

do lado seco, 
pálpebras que se fecham
sem peso ou promessas

do outro, 
este feixe de amor e memórias
esta rede de minúsculas pedras
onde o mar se deita

(há coisas que só vejo 
em dias de chuva)



quarta-feira, 21 de dezembro de 2016

Lâmina


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a lâmina pressente
o sumo sobre a língua
a carne ainda quente 
a exatidão do corte

eis a minha sina:

tua sombra contra os dentes
a boca entreaberta
a fruta pela metade

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Avenidas

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à memória do teu olho esquerdo
atravessando as linhas do meu rosto
digo que tudo é mais
e chama

a vida
este ir e vir
de trens cansados
em avenidas subterrâneas

o amor
esta pequena armadilha
uma cidade sobre a outra
uma saudade que dissesse

é tempo de abrir a pele
e andar sobre o fogo

domingo, 6 de novembro de 2016

Canteiro

Imagem: Daniela Delias


no vão que faz o vestido
quando afunda entre as pernas
pus as pequenas pedras
e agora invento uma cidade

que pode uma mulher
quando arquiteta um templo
sem que lhe dobre o punho 
sem que lhe pese o colo
sem que se parta em muitas?

as menores coisas
dei de mover uma a uma


domingo, 23 de outubro de 2016

Meteoros

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despenco sobre os acontecimentos
(há tanta beleza e selvageria)

os homens em torno da mesa
ainda falam sobre Dylan
e eu penso what's a sweetheart like you
doin' in a dump like this?

há tempos falamos alto
e distraímos a morte
colhendo flores
traindo desertos

de todo modo, cá estamos
feras e meteoros
e em algum ponto
entre o céu e o asfalto
também não somos vistos