segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Avenidas

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à memória do teu olho esquerdo
atravessando as linhas do meu rosto
digo que tudo é mais
e chama

a vida
este ir e vir
de trens cansados
em avenidas subterrâneas

o amor
esta pequena armadilha
uma cidade sobre a outra
uma saudade que dissesse

é tempo de abrir a pele
e andar sobre o fogo

domingo, 6 de novembro de 2016

Canteiro

Imagem: Daniela Delias


no vão que faz o vestido
quando afunda entre as pernas
pus as pequenas pedras
e agora invento uma cidade

que pode uma mulher
quando arquiteta um templo
sem que lhe dobre o punho 
sem que lhe pese o colo
sem que se parta em muitas?

as menores coisas
dei de mover uma a uma


domingo, 23 de outubro de 2016

Órion

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despenco sobre os acontecimentos
(há tanta beleza e selvageria)

os homens em torno da mesa
ainda falam sobre Dylan
e eu penso what's a sweetheart like you
doin' in a dump like this?

há tempos falamos alto
e distraímos a morte
colhendo flores
traindo desertos

de todo modo, cá estamos
feras e meteoros
em algum ponto
entre o céu e o asfalto
passando sem ser vistos


quinta-feira, 13 de outubro de 2016

Deuses


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é sempre o mesmo poema
este em que digo do amor 
ou outra espécie de orfandade

mas ele pede que eu escreva
ele teme que eu me esqueça
e à semelhança de outros deuses 
se põe a catar serpentes sob meus ossos

é sempre o mesmo poema
que me abre que me quebra que me come 
e nunca nasce

sexta-feira, 30 de setembro de 2016

Andarilha

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no que foi a manhã sem curso
cresce agora a palavra tempestade

antes a tivesse engolido
quando eu mesma torvelinho
movia meus nervos e lábios
a perguntar por ti

no que fui um feixe de músculos
vê-se agora um devir de pássaros

antes os tivesse esquecido
quando eu mesma andarilha
alheia a teus ossos e nomes 
parecia a palavra multidão


quarta-feira, 21 de setembro de 2016

Ofício

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quando cheguei
os homens dormiam
e as mulheres cantavam

eu dancei com elas
e jurei
dizer seus nomes
cerzir suas roupas
ouvir seus filhos
banhar seus mortos

quando cheguei
e os homens dormiam
as mulheres cantavam

eu dancei com elas
e jurei
poder me ouvir cantar


sexta-feira, 16 de setembro de 2016

Ave

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depois daquele janeiro 
ninguém me viu sangrar 
tampouco dizer que a morte
é quem me toma 
o poema mais sutil

talvez a visão inesperada
da coruja sobre a lixeira
a forma como gira a cabeça
como move suas garras
como engole tudo inteiro 

ou a memória de nossos olhos
devolvendo a cada noite 
a mais perfeita escuridão


sexta-feira, 9 de setembro de 2016

Barcos

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você me pergunta se tudo está bem
digo que chove há mais de uma semana
e que nem por isso recuamos

uma espécie de riqueza, você diria
isso d’eu por as mãos em seu peito
supondo barcos ao longe

quinta-feira, 11 de agosto de 2016

Cartografia

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o que se move, 
grande amor, 
é a estrada.

não é preciso enumerar os passos
ou dizer de algum mover mais fundo

ocupo-me agora das pequenas folhas 
que se erguem entre as margens
e penso se devo fechar os olhos
ou cartografar seus brevíssimos voos



quarta-feira, 3 de agosto de 2016

Contemporâneas: Antologia Poética



Contemporâneas: Antologia Poética reúne 60 poetas brasileiras, com seleção de Adriane Garcia. Muita gratidão por fazer parte. Abaixo, o link para acesso. 

https://issuu.com/vidasecreta/docs/contempor__neas_-_antologia_po__tic



Roteiro


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armar as palavras não ditas 
com o metal de nossos sonhos

beijá-las vertiginosamente
antes que nasçam
antes que quebrem
antes que partam

não dizer que uma língua que cala 
é uma língua que sangra

escrever um poema de amor 
que por não saber 
o diga


domingo, 24 de julho de 2016

Gesto

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um gesto claro, eu diria

este de escorregarmos pra fora
até que a memória acendesse ternuras
por campos inteiros de obscuridade

só depois pediríamos à noite 
que estendesse sua língua de fogo
sobre nossos olhos cansados

só depois nos diríamos
o que mães dizem às filhas
quando inauguram o primeiro silêncio 



domingo, 19 de junho de 2016

Trópicos

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não entendo
a posição dos ventos
a duração dos dias
mas sei de deuses 
que falam às sombras 
quando dançam sobre os trópicos

desde este braço de rio
tudo estranho, desconheço

sou eu esse salto de peixe
partindo o oceano 
em mil engrenagens

sou eu esse voo na noite
tomando do inseto 
a ausência de ossos

(Releitura - poema antigo que virou outro.)

sexta-feira, 15 de abril de 2016

Lanças

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aconteceu de chover tanto
que cogumelos imensos
nasceram no concreto

justo hoje que não diria
dos punhais sobre o sonho
vesti minhas luvas
cerquei-me de lanças
vi meu coração partido

há coisas 
que simplesmente nascem:
não se pode dissuadir a vida 
de sua natureza terrível

sexta-feira, 8 de abril de 2016

Palimpsesto

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o que permanece
sobe e desce escadas
cora e trança cabelos
ressente-se das horas
assenhora-se dos pássaros

escrevo sobre as folhas
de um abril adormecido
escrevo sobre as cinzas 
de uma cidade soterrada
escrevo sobre você
homem de outro tempo

(ruínas não ocultam 
imaterialidades)


quinta-feira, 31 de março de 2016

Fogo

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não importa
se me tomo de muros
se me cubro de medos
se me doem as horas:

teus olhos erguem sobre meu sonho
duas colunas negras, luminosas

é quando danço sobre o fogo
e digo às coisas que se calem
e se ocupem de devolver à noite
algum silêncio ou escuridão

quarta-feira, 16 de março de 2016

Cortejo

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toco sua boca e você fala
sobre o vermelho da minha

não vê que é você
à frente do cortejo
lambendo as feridas
juntando os ossos
acordando a cidade

não fosse a pressa 
dos que passam
o sono dos que ficam
a indolência dos que partem
estaria em todo canto:

na mesa de centro da sala
nos olhos dos homens que amo
nas mãos que dividem o dia
em mil pedacinhos de nada



quinta-feira, 10 de março de 2016

Portas

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disse a ele: à pedra
que se fende e parte
dá-se a palavra físsil

abrisse todas as portas
e dissesse: vê, amantíssimo
como chove aqui dentro
não molharia tanto


O corpo


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é bom que seja assim:
pele/nervos/pelos/ossos
tua ausência desmentida
minha carne dissecada

pudesse a noite ouvir o corpo
mais que o esquecimento
faria supor que sobre toda falta
incide um silêncio antigo
e selvagem

segunda-feira, 7 de março de 2016

Pele

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quando ando
a pele muda
vagarosa

vê: pareço outra
desde que noutros olhos
aprendi a andar em silêncio

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2016

O muro

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não posso dizer que a vi
entre a caixa e o copo
do lado de dentro 
de um arranha-céu

e que depois de tudo 
ainda pusesse 
os lábios sobre o muro
movendo a língua
resignadamente 

não posso dizer que ali
entre a boca e o leite
ela soubesse
do corpo ou do mundo
e que apesar de tudo
há todas essas coisas 
que não se pode dizer


quarta-feira, 17 de fevereiro de 2016

Lava

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atravessamos a noite 
sem dizer seus nomes

nenhuma palavra lava
minério, matéria escura
palavra alguma solidão

pudesse esse amor 
sangrar todo silêncio
ainda saberíamos:

o mundo nunca começou

terça-feira, 12 de janeiro de 2016

Limo

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procurando por algo que brilhe
uma espécie de noite ou milagre
o segredo do vaivém de mãos do artífice
na caixa azul do velho boticário

entenderia se me dissesse
que são meus olhos
não os teus

tudo o mais é pedra
lambendo o limo
tudo o mais é homem
amanhecendo


sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Breviário

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daqui posso dizer:
parecem atentos
não perfilados 

armam-se, bárbaros
sobre espólios
de uma antiga guerra

ninguém sabe
se rezam ou cantam
se creem em pássaros
ou cadafalsos
porque de suas bocas
desertam breviários

e quando seguem
rumo ao ponto mais alto
desejam-se
bravos, insurgidos
como se lhes fosse dada
a delicadeza de tocar o abismo

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Vidraça

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há os que se ocupam 
em apagar vestígios
de lâminas invisíveis
eu, manhã sem sombra
só faço lavar meus olhos
e ver que o calcário, irmão
ainda habita a vidraça
por onde víamos o mundo

domingo, 20 de setembro de 2015

Sabre

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“... esse rude descobrir-se e procurar-se, 
esse áspero sabor um do outro, sabe como é, o amor.”
Italo Calvino


que me tome os olhos
que me arme os dentes
que me engula aos poucos

o amor
esse leito de pedras
à margem da tua boca
essa língua de sabre
cravada em meus ossos

o amor
esse pássaro


domingo, 6 de setembro de 2015

Espáduas

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não é porque escrevo
que se erguem montanhas
ou pétalas caem
vertiginosamente
cobrindo ruas, espáduas

se olhar nos olhos da noite
verá quão selvagem seu silêncio
(e não é porque não escrevo)

aqui, onde dormem os animais
um festim de estrelas mortas
aqui, no escuro, o homem
esta pequena máquina
movida à espera

e algum petróleo

domingo, 16 de agosto de 2015

Rugido


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há quem chame melancolia
o rugido tardio das pedras
dinamitadas contra o peito

mas não há por que dizer
restos de estrondo e pólvora
(as coisas são mais que seus nomes)

a mim fere mais
esse burburinho de pássaro
movendo suas asas finíssimas
intocadas pelo tempo

terça-feira, 14 de julho de 2015

Namíbia

Imagem: Martin Bureau - Deserto de Sussublei, na República da Namíbia  


não é possível desaparecer
no deserto da Namíbia

as árvores mortas 
há centenas de anos
ainda tocam o alto

e não se molham
seus olhos secos
e não se dobram
seus braços escuros

as árvores do Namibe
doem-me como se vivas

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Pássaros



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a lona estendida sobre os cacos
centenas de pássaros contra o peito
a carne aberta até o osso

você aperta a fruta entre os dedos
e é ela que supõe seu gosto


sábado, 20 de junho de 2015

Meninos

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Para Manuela Santo, Clarice Pires, 
Raquel Tramasoli e Liliane Albino


dentro dos olhos
do menino sem nome
bailam as turbinas silenciosas  
de um avião sem pilhas

debaixo da manga do outro
uma coleção de feridas

mas no sonho dentro do sonho
o pequeno tigre não teme a noite
o boneco tem longos braços
a menina ainda é menina

e se move entre estátuas

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Miúda

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coroa-do-monge
amor-dos-homens
dente-de-leão

você, florzinha miúda
soprada até o extravio

não importa a leveza:
conquanto íngreme, alargado
é o campo que atravessa

domingo, 31 de maio de 2015

Onda

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à pedra não pese a palavra
a duração do silêncio
do chumbo, do polietileno

à pedra não pese a lembrança
o passo estridente da noite
o andar abatido dos vivos
o corpo, o fogo, a rosa

há coisas que movem em ondas:
som sol sismo serpente

como dizer amor
sem pesar seu nome?

terça-feira, 5 de maio de 2015

A seta

Imagem: Daniela Delias


ela lambe meus pelos
meus calcanhares feridos
é quando sonha labirintos
entre o corpo e a seta

a despeito 
da mira dos deuses
da fúria dos homens 
da cura, das profecias

nas dobras de sua língua
a noite resiste e move

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Relógios


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não são os relógios
que fazem morrer os dias
tampouco as horas cometidas
entre ritos e cartas de amor

há que entender o fogo
as cinzas de um Calbuco
sobrevoando o Atlântico

há que tomar as vendas 
dos olhos das rochas 
que batem e rompem a terra 
e engolem os homens

não são as palavras escritas
religiosamente ordenadas
amorosamente repetidas
que fazem nascer os dias

as línguas que selam as cartas
não salvam os oceanos

sábado, 11 de abril de 2015

Nunca Estivemos em Ítaca



Queridos amigos: este é meu novo livro!
Ele já está em pré-venda no site da Editora Patuá.


Obrigada pelas leituras de sempre, pelo incentivo!


sábado, 4 de abril de 2015

Fome


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não há deus que nos livre dessa fome 
que nos abra com os dentes 
que nos fale porque bichos

nenhum deus que nos guarde e livre
dessa falta que leva ao fundo
desse fundo que fala à pedra 

nada há que levite

domingo, 29 de março de 2015

Para Said


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foi como aquela tarde em Gaza

eu dizia: corra, Ahed
não morra, Zakari
a morte, Mohammed
é um estrondo que vem do mar





terça-feira, 24 de março de 2015

Reza


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a boca aberta, as mãos
os olhos, as dores que ergue
e faz pender entre os braços

a palavra deus devolvida
à mecânica da língua

a pele fina dos pés
aos desejos do fundo

sábado, 14 de março de 2015

Bordas

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dizer do amor que nada se move
como naquela fotografia:

o lago do dragão, as velhas pontes
um Fuji-Sama de mentira
ardendo pequeno, desacordado
(impossível saber se sorríamos)

dizer, amor, que nada comove tanto
como os carros quando deitam suas luzes
sobre as frestas de um teto lento, insone

é quando tua falta me come
sórdida e vagarosamente
soprando a noite pelas bordas