domingo, 30 de junho de 2013

Cântaro

Imagem: José Boldt - via Google
É o vinho, ele diz. Não repare. Ou a chuva. Chove desde que você chegou. Telas, janelas, panos, cômodos. Tudo molha, chove a cântaros. Já tivemos um junho assim? Eu não sei. Aqui também chove o tempo todo. Pus um vaso-guarda-gotas sobre o criado-mudo, ao lado do caderno antigo. Recolhi as roupas. Afastei móveis e ruídos. Reli a carta, revi a cena. Era você naquele gesto? Meu passo, tua boca, dez segundos. Era você naquele mundo? Talvez eu te escreva um verso. Talvez eu te queira nua. Talvez eu esqueça o plano. Talvez eu já seja tua. É o vinho, ele diz. Ela não repara. Vontade de te abraçar. Vontade de dançar no teu abraço. Vontade de te beijar. Vontade de demorar no teu beijo. Suspira-se muito por aqui. Por aqui também - ele sussurra. Suspira-se como chove.

sexta-feira, 28 de junho de 2013

Nota

Arquivo pessoal de Daniela Delias
dormir, acordar
acender o fogo
alimentar os dragões

nas noites de junho
subverter a pauta
decantar o verso
desejar entre os pelos
a doce violência
que escorre da tua boca

acordar, dormir
permanecer

sábado, 22 de junho de 2013

Labirintos

"Desejo" 
Google - sem informação de autoria

esqueço o guarda-chuva
recolho os pratos, as flores
gemem de frio as sandálias

tonta, invento labirintos
nego as lonjuras da noite
transito órbitas improváveis

nas curvas de um ideograma
a musa estende o braço, a boca

há um nome dentro do meu nome
uma palavra que chamo minha

quinta-feira, 20 de junho de 2013

Tribo

Imagem: Daniela Delias
Boas notícias lá da Editora da Tribo :)
A Agenda da Tribo de 2014/2015 trará 3 poemas meus!!!
Tri feliz, compartilho com os amigos os três textos selecionados!


Minúcias

desde ontem arrasto móveis
molho plantas, aparo pontas
cato minúcias

só não lembro
onde deixei aqueles brincos

aqueles que pesam
como os silêncios que saem da tua boca

* * *

Sua

tão sua e ainda assim errante
porque tudo em si movia
mãos, lábios, montes

tudo era assim
prelúdio, além, afora
tudo era assim adiante

* * *

Tear

ela tece com fio lilás
as rotas do seu olhar

mas quando ele chega
ensaia outras cores
inventa moda
cobre-se de rendas

ele anseia por suas saias
e rende-se às suas teias

quinta-feira, 13 de junho de 2013

Asa

Imagem: http://www.flickr.com/photos/annalisaschiavone/
"Tudo o que é necessário, germina.
Folha, canção, precipício".

André Ricardo Aguiar


ela desfia o mapa
ele espera as chuvas
o beijo espera a face
na asa de um colibri

sábado, 8 de junho de 2013

A mesa

Google - sem informação de autoria

à mesa posta
a mesma pressa

à boca-outra
as letras mesmas

à língua farta
estrangeirismos

à direita de quem entra
um ensaio sobre o riso
um tratado sobre o tempo

seis passos à esquerda
o livro, o não-dito e a pulseira

sobre a mesa de cabeceira
o inventário de uma fuga

domingo, 2 de junho de 2013

O doce a a pressa

Google - sem informação de autoria
Meu filho. Não é automatismo. Juro. É jazz do 
coração. É prosa que dá prêmio. Um tea for two 
total., tilintar de verdade que você seduz, 
charmeur volante, pela pista, a toda. Enfie a 
carapuça. 
E cante. 
Puro açúcar branco e blue.

Ana Cristina Cesar



um breve bater de pernas
derramaria o que resta
do doce e da pressa

um gole que bebesse o raso
um gesto que engolisse a boca
um gosto de ter entre os dentes
o sal a sede a fome o pão

no centro da mesa
um chá para dois