quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Partes


Google - sem informação de autoria


toma a palavra exército
põe devagar entre os dedos
dobra em pequenas partes

há uma guerra, eu sei
frotas falanges incêndios
(a horda insiste, devastada)

não somos o inferno, meu bem
só essa caixa de guardados

domingo, 7 de dezembro de 2014

A carne



prender-me a um nome, uma ideia
deixar que arranque lentamente meus pelos
sujar as mãos, cravar os dentes
morrer de amor, morrer de amor

arranhar-me, condescendente
como se condenada à roseira
e olhando nos olhos de Chronos
entregar a pedra, não o filho

mas ainda assim
diante da carne clara da que fui
morrer um pouco

domingo, 30 de novembro de 2014

Agulhas



Imagem: Amelia Delias de Sousa


Para Amelia Delias de Sousa

nos dedos de minha mãe
é que as horas desdobravam 
os silêncios mais sentidos

não que eu quisesse cantar
porque nos dedos de minha mãe
eu também ia e vinha

basta agora uma canção amarrotada
ou um suave e metálico tilintar de agulhas
e eu alimento os relógios antigos


quinta-feira, 20 de novembro de 2014

Navios

Google - sem informação de autoria


dizíamos ossos e pedras
navios de cascos alquebrados
e olhávamos de dentro do nada
com uma clareza furiosa

dizíamos de tal modo que a palavra
parecia a dor verdadeiramente dita

e não porque leve, suaviloquente
o amor deu de nomear as coisas

domingo, 16 de novembro de 2014

Polaroides, uma leitura





gostava de imaginar seus olhos
atravessados pelos meus

seus olhos de engolir mundos
devorados pela precisão
das pequenas coisas:

cartas, polaroides, instantes
a solidão dos livros na estante
um haicai de Bashô


domingo, 2 de novembro de 2014

Ninfas


Google - sem informação de autoria

temos o oco das bocas
duramos além do gesto

quem dera perto das águas
saber o que sabem as ninfas 
aqueles pequenos insetos
que nascem e dançam e morrem 

sem ter visto a noite

sábado, 11 de outubro de 2014

Aldebarã


Imagem: Daniela Delias


desarmar o homem
e sobre seus ombros
guardar os olhos de Aldebarã

desamar, talvez
mas nunca, nunca ir embora

do nada ao desmedido
meus deuses ainda habitam
um céu terrivelmente azul

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

Bando

Google - sem informação de autoria

estamos tão longe do bando
chegamos tão perto do fogo
e ainda é inverno, grande amor

meus olhos estão abertos
- eles são luas, você diz
eu digo: pássaros pequenos
nômades, estrangeiros

um céu de onde se ir

quarta-feira, 30 de julho de 2014

Ítaca


Imagem: tributo do artista Amir Schiby a quatro  meninos mortos 
no bombardeio que atingiu uma praia de Gaza no dia 16/07/2014.



nunca estivemos em Ítaca
ou nas montanhas coloridas de Gansu

mas ontem seus pés tocaram os meus
sobre as cinzas de um céu mediterrâneo

choramos, você e eu
as fendas vermelhas dos mapas
a infância traída pelo deserto

nunca estivemos em Ítaca
e agora choramos juntos
as horas consumidas pelo fogo

sexta-feira, 18 de julho de 2014

Janelas

Google - sem informação de autoria

uma vez mais olhamos
nos olhos da noite

desde aquele ombro
ao largo da consolação
a vida coabitava janelas
e corredores escuros

vez ou outra
eu abandonaria
o hábito do deserto


domingo, 6 de julho de 2014

Alçapão

Google - sem informação de autoria


o homem desce agora
à casa de um deus torto

seus ossos quebram os átomos
seus pés lambem o escuro

lá vai o homem
a caminho da casa
do deus subterrâneo

- asa, ele diz, é armadilha.

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Estreia na Benfazeja - Revista Literária

ORIGAMI, por Solok
Em http://olhares.uol.com.br/solok/




terça-feira, 13 de maio de 2014

Nota IV




Google - sem informação de autoria

sopesar os vãos, os ardis
surpreender os vazios

escutar senão o gemido
dos vapores noturnos

alquebrar minhas lanças
recortar teus versos
atar à minha a tua deidade

desinventar 
a palavra amor

terça-feira, 6 de maio de 2014

Um canto para Alice




Caros amigos,


Alguns poemas que remetem à "Alice" têm surgido com alguma frequência entre meus escritos. Por conta disso, e de minha simpatia por esta pequena série, resolvi retirá-los daqui para que morem em um cantinho à parte. Convido-os, então, a visitarem o espaço"Alice e os dias", que está aqui:




No mais, seguirei publicando aqui no Sombra, Silêncio ou Espuma.

Beijão,

Daniela

domingo, 27 de abril de 2014

Roseira

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não, eu não olhei
para trás, Orfeu

eu, um corpo
serpenteando
sobre a roseira

uma ave migratória
tocada pelo fogo


sábado, 29 de março de 2014

O tempo

Imagem: Daniela Delias


não tenha medo, meu bem:
- não há desamparo.

é só um desfiladeiro
e a palavra pêndulo
lambendo minha boca.


quarta-feira, 26 de março de 2014

3 poemas no Escritoras Suicidas - Março/2014

Imagem: Larissa Marques


edição 46 | março de 2014
temas: frida kahlo | nudez | saudade


coyoacán

 I

não dei pelo azul de casa e rio

também atravessava portas de vidro
veludo vestido coberto de ouro e sangue

eu e meus risinhos vermelhos
meu bailar sem peso algum


II

eu sei, Magdalena,
não há outro azul.

lembra quando sua boca
soprava o ar sobre as janelas
e você desenhava portas
para ter de onde se ir?

estou aqui, Magdalena,
e meus pés flanam
como os seus.

deste lado do espelho,
eu escrevo para você.


a dança


diremos das pedras
dos pés e do limo
até que tudo reste ínfimo
e castas palavras dancem nuas
sob um céu vermelho-vivo

de nossa sede
não diremos

nem das noites em que vens
e farta de não ser
sangro em tua língua
caminho tuas costas


escombros


Eu moraria em seus olhos. Olhos-pesos-de-papel deitados sobre os meus em uma carta-poema de delicada caligrafia. Não pela impossibilidade de existir feito coisa que se junta a outras coisas em casas-amálgamas de paredes, retratos e paraísos perdidos. Mas pela saudade de um lugar que me habitasse. Lugar-casa, lugar-coisa, lugar-peso, lugar qualquer de légua percorrida com os pés descalços sobre a bruta pedra dos dias. Eu moraria em seu passo largo e em seu riso contido — também me habitam distâncias e discretas alegrias. Eu sucumbiria às fomes de dentro, às sedes desmedidas. Ofertaria fogueiras e aquela sua dança de línguas aos deuses do outono e seus caprichos. Aliás, eu morreria em seu corpo e sua língua. E nasceria no que em nós resistisse palavra e restasse evidência. Não que prescinda da arte a pele. Não que prescinda da vida o gozo que ampara e dilacera. É que em versos reinvento o seu corpo. E só então deslizo suave entre os escombros.


terça-feira, 4 de março de 2014

Descaminho




Daniela Delias - Arquivo Pessoal

sol a sol
tão só e nua
vez em quando
era só lua
e ainda assim ardia

não fossem os sapatos distraídos
saberia de cor a cor do caminho

mas quando ela ia e vinha
um pé seguia o outro
quase por princípio

sol a sol
vez em quando lua
a carne fica mais viva


(Descaminho é um poema do livro "Boneca Russa em Casa de Silêncios - Editora Patuá/2012. Volto um tantinho a ele neste 04/03, por conta de meu aniversário).

sábado, 1 de março de 2014

Azulejos


Google - sem informação de autoria


não dançamos aquele blues
nem daquele amor 
(de morrer tambores 
arrebentando o peito)
morremos

ontem reparei nos azulejos
nos respingos de tinta verde
sobre a pedra do alpendre

pensei em comida, correio
no preço do pão e das flores
no sol que lambe minha carne
na cor que cobre meus cabelos

é tão clichê morrer de amor
e nem dançamos aquele blues



Set/2012
Poema reeditado. 

terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Domesticidades

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à boca entreaberta
não ocorre dobrar a língua
repetir domesticidades
en-tre-cor-tar o silêncio 
que há entre uma flor 
.
.
.
.e outra

quinta-feira, 20 de fevereiro de 2014

Coyoacán - Parte II

As duas Fridas - Frida Kahlo, 1939
eu sei, Magdalena,
não há outro azul.

lembra quando sua boca
soprava o ar sobre as janelas
e você desenhava portas
para ter de onde se ir?

estou aqui, Magdalena,
e meus pés flanam
como os seus.

deste lado do espelho,
eu escrevo para você.

quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Coyoacán

Frida Kahlo - imagem sem informação de autoria

não dei pelo azul de casa e rio

também atravessava portas de vidro
veludo vestido coberto de ouro e sangue

eu e meus risinhos vermelhos
meu bailar sem peso algum


sábado, 15 de fevereiro de 2014

A ilha

Imagem: Daniela Delias

quando disse teu nome 
minha boca soou tão antiga

repara, repara em minha boca
quando te guardo, quando te digo:

esta cidade, meu bem, 
é quase uma ilha

segunda-feira, 10 de fevereiro de 2014

Leoa

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encosta em sua coxa
um beijo de água-viva
crava em sua carne
uns dentes de mãe-leoa

mas a leveza, a sua
ela come com os olhos

sábado, 1 de fevereiro de 2014

Três

Google - sem informação de autoria

você ouviu bem, meu amor
três navios partiram
em direção ao rochedo 

mas não pergunte sobre o mar
e as bocas entreabertas
à mercê de naufrágios

entenda os desertos
a sede compartida
a metafísica das águas

: beba

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A noite

Pablo Picasso, “Nu Couché”, 1933.

bebe com mil línguas
minha noite estilhaçada 

é quando creio 
em tudo o que fere

o flanco a flecha a curva 
amorosa do arco

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

1 poema no site Cronisias

Google - sem informação de autoria

Cântaro, um poema em prosa que escrevi em junho de 2013, foi publicado aqui, na bela Mandinga - Arte e Literatura - e agora no site Cronisias, pelo poeta/amigo Fred Caju, em 31/12/2013. Compartilho outra vez o texto, com desejos de um lindo 2014 para todos :)


É o vinho, ele diz. Não repare. Ou a chuva. Chove desde que você chegou. Telas, janelas, panos, cômodos. Tudo molha, chove a cântaros. Já tivemos um junho assim? Eu não sei. Aqui também chove o tempo todo. Pus um vaso-guarda-gotas sobre o criado-mudo, ao lado do caderno antigo. Recolhi as roupas. Afastei móveis e ruídos. Reli a carta, revi a cena. Era você naquele gesto? Meu passo, tua boca, dez segundos. Era você naquele mundo? Talvez eu te escreva um verso. Talvez eu te queira nua. Talvez eu esqueça o plano. Talvez eu já seja tua. É o vinho, ele diz. Ela não repara. Vontade de te abraçar. Vontade de dançar no teu abraço. Vontade de te beijar. Vontade de demorar no teu beijo. Suspira-se muito por aqui. Por aqui também - ele sussurra. Suspira-se como chove.

3 poemas no Escritoras Suicidas - Dez/2013

Imagem: Thereza Portes


edição 45 | dezembro de 2013
temas: mentira | tesão | fé


das coisas que não existem

as flores dentro do livro, eu sei

elas não existem

nem a fotografia: mulher nua, de joelhos
a cor dos olhos como uma ideia
e bastava — você a tinha inteira

ríamos do copo e da maçaneta
do peso da louça sobre a superfície
as coisas quebram, você dizia

eu ria, eu também inexistia
quando caminhava entre seus pelos
repetindo aquelas doces mentiras

...


a medida das chuvas

molha a boca, os dedos

as sedes que te rondam o lábio

depois, à sombra
úmida, farta
estende-se

abrasa equívocos
digere contrários

...


a linha

a outra no espelho

vive come limpa veste
não sangra, costura

pensa na reta que liga
o olho à linha
na linha que espera
o buraco da agulha

do alto de seu deserto
cantaria a um deus
se falasse a sua língua