quarta-feira, 26 de março de 2014

3 poemas no Escritoras Suicidas - Março/2014

Imagem: Larissa Marques


edição 46 | março de 2014
temas: frida kahlo | nudez | saudade


coyoacán

 I

não dei pelo azul de casa e rio

também atravessava portas de vidro
veludo vestido coberto de ouro e sangue

eu e meus risinhos vermelhos
meu bailar sem peso algum


II

eu sei, Magdalena,
não há outro azul.

lembra quando sua boca
soprava o ar sobre as janelas
e você desenhava portas
para ter de onde se ir?

estou aqui, Magdalena,
e meus pés flanam
como os seus.

deste lado do espelho,
eu escrevo para você.


a dança


diremos das pedras
dos pés e do limo
até que tudo reste ínfimo
e castas palavras dancem nuas
sob um céu vermelho-vivo

de nossa sede
não diremos

nem das noites em que vens
e farta de não ser
sangro em tua língua
caminho tuas costas


escombros


Eu moraria em seus olhos. Olhos-pesos-de-papel deitados sobre os meus em uma carta-poema de delicada caligrafia. Não pela impossibilidade de existir feito coisa que se junta a outras coisas em casas-amálgamas de paredes, retratos e paraísos perdidos. Mas pela saudade de um lugar que me habitasse. Lugar-casa, lugar-coisa, lugar-peso, lugar qualquer de légua percorrida com os pés descalços sobre a bruta pedra dos dias. Eu moraria em seu passo largo e em seu riso contido — também me habitam distâncias e discretas alegrias. Eu sucumbiria às fomes de dentro, às sedes desmedidas. Ofertaria fogueiras e aquela sua dança de línguas aos deuses do outono e seus caprichos. Aliás, eu morreria em seu corpo e sua língua. E nasceria no que em nós resistisse palavra e restasse evidência. Não que prescinda da arte a pele. Não que prescinda da vida o gozo que ampara e dilacera. É que em versos reinvento o seu corpo. E só então deslizo suave entre os escombros.


3 comentários:

António Eduardo Lico disse...

3 belas poesias.

Germano Xavier disse...

Totens.

Larissa Marques - LM@rq disse...

:)

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