sábado, 29 de março de 2014

O tempo

Imagem: Daniela Delias


não tenha medo, meu bem:
- não há desamparo.

é só um desfiladeiro
e a palavra pêndulo
lambendo minha boca.


quarta-feira, 26 de março de 2014

3 poemas no Escritoras Suicidas - Março/2014

Imagem: Larissa Marques


edição 46 | março de 2014
temas: frida kahlo | nudez | saudade


coyoacán

 I

não dei pelo azul de casa e rio

também atravessava portas de vidro
veludo vestido coberto de ouro e sangue

eu e meus risinhos vermelhos
meu bailar sem peso algum


II

eu sei, Magdalena,
não há outro azul.

lembra quando sua boca
soprava o ar sobre as janelas
e você desenhava portas
para ter de onde se ir?

estou aqui, Magdalena,
e meus pés flanam
como os seus.

deste lado do espelho,
eu escrevo para você.


a dança


diremos das pedras
dos pés e do limo
até que tudo reste ínfimo
e castas palavras dancem nuas
sob um céu vermelho-vivo

de nossa sede
não diremos

nem das noites em que vens
e farta de não ser
sangro em tua língua
caminho tuas costas


escombros


Eu moraria em seus olhos. Olhos-pesos-de-papel deitados sobre os meus em uma carta-poema de delicada caligrafia. Não pela impossibilidade de existir feito coisa que se junta a outras coisas em casas-amálgamas de paredes, retratos e paraísos perdidos. Mas pela saudade de um lugar que me habitasse. Lugar-casa, lugar-coisa, lugar-peso, lugar qualquer de légua percorrida com os pés descalços sobre a bruta pedra dos dias. Eu moraria em seu passo largo e em seu riso contido — também me habitam distâncias e discretas alegrias. Eu sucumbiria às fomes de dentro, às sedes desmedidas. Ofertaria fogueiras e aquela sua dança de línguas aos deuses do outono e seus caprichos. Aliás, eu morreria em seu corpo e sua língua. E nasceria no que em nós resistisse palavra e restasse evidência. Não que prescinda da arte a pele. Não que prescinda da vida o gozo que ampara e dilacera. É que em versos reinvento o seu corpo. E só então deslizo suave entre os escombros.


terça-feira, 4 de março de 2014

Descaminho




Daniela Delias - Arquivo Pessoal

sol a sol
tão só e nua
vez em quando
era só lua
e ainda assim ardia

não fossem os sapatos distraídos
saberia de cor a cor do caminho

mas quando ela ia e vinha
um pé seguia o outro
quase por princípio

sol a sol
vez em quando lua
a carne fica mais viva


(Descaminho é um poema do livro "Boneca Russa em Casa de Silêncios - Editora Patuá/2012. Volto um tantinho a ele neste 04/03, por conta de meu aniversário).

sábado, 1 de março de 2014

Azulejos


Google - sem informação de autoria


não dançamos aquele blues
nem daquele amor 
(de morrer tambores 
arrebentando o peito)
morremos

ontem reparei nos azulejos
nos respingos de tinta verde
sobre a pedra do alpendre

pensei em comida, correio
no preço do pão e das flores
no sol que lambe minha carne
na cor que cobre meus cabelos

é tão clichê morrer de amor
e nem dançamos aquele blues



Set/2012
Poema reeditado.