domingo, 20 de setembro de 2015

Sabre

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“... esse rude descobrir-se e procurar-se, 
esse áspero sabor um do outro, sabe como é, o amor.”
Italo Calvino


que me tome os olhos
que me arme os dentes
que me engula aos poucos

o amor
esse leito de pedras
à margem da tua boca
essa língua de sabre
cravada em meus ossos

o amor
esse pássaro


domingo, 16 de agosto de 2015

Rugido


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há quem chame melancolia
o rugido tardio das pedras
dinamitadas contra o peito

mas não há por que dizer
restos de estrondo e pólvora
(as coisas são mais que seus nomes)

a mim fere mais
esse burburinho de pássaro
movendo suas asas finíssimas
intocadas pelo tempo

terça-feira, 14 de julho de 2015

Namíbia

Imagem: Martin Bureau - Deserto de Sussublei, na República da Namíbia  


não é possível desaparecer
no deserto da Namíbia

as árvores mortas 
há centenas de anos
ainda tocam o alto

e não se molham
seus olhos secos
e não se dobram
seus braços escuros

as árvores do Namibe
doem-me como se vivas

segunda-feira, 29 de junho de 2015

Pássaros



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a lona estendida sobre os cacos
centenas de pássaros contra o peito
a carne aberta até o osso

você aperta a fruta entre os dedos
e é ela que supõe seu gosto


sábado, 20 de junho de 2015

Meninos

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Para Manuela Santo, Clarice Pires, 
Raquel Tramasoli e Liliane Albino


dentro dos olhos
do menino sem nome
bailam as turbinas silenciosas  
de um avião sem pilhas

debaixo da manga do outro
uma coleção de feridas

mas no sonho dentro do sonho
o pequeno tigre não teme a noite
o boneco tem longos braços
a menina ainda é menina

e se move entre estátuas

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Miúda

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coroa-do-monge
amor-dos-homens
dente-de-leão
você: florzinha miúda
soprada até o extravio

não importa a leveza
conquanto íngreme, alargado
é o campo que atravessa

domingo, 31 de maio de 2015

Onda

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à pedra não pese a palavra
a duração do silêncio
do chumbo, do polietileno

à pedra não pese a lembrança
o passo estridente da noite
o andar abatido dos vivos
o corpo, o fogo, a rosa

há coisas que movem em ondas:
som sol sismo serpente

como dizer amor
sem pesar seu nome?

terça-feira, 5 de maio de 2015

A seta

Imagem: Daniela Delias


ela lambe meus pelos
meus calcanhares feridos
é quando sonha labirintos
entre o corpo e a seta

a despeito 
da mira dos deuses
da fúria dos homens 
da cura, das profecias

nas dobras de sua língua
a noite resiste e move

segunda-feira, 27 de abril de 2015

Relógios


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não são os relógios
que fazem morrer os dias
tampouco as horas cometidas
entre ritos e cartas de amor

há que entender o fogo
as cinzas de um Calbuco
sobrevoando o Atlântico

há que tomar as vendas 
dos olhos das rochas 
que batem e rompem a terra 
e engolem os homens

não são as palavras escritas
religiosamente ordenadas
amorosamente repetidas
que fazem nascer os dias

as línguas que selam as cartas
não salvam os oceanos

sábado, 11 de abril de 2015

Nunca Estivemos em Ítaca



Queridos amigos: este é meu novo livro!
Ele já está em pré-venda no site da Editora Patuá.


Obrigada pelas leituras de sempre, pelo incentivo!


sábado, 4 de abril de 2015

Fome


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não há deus que nos livre dessa fome 
que nos abra com os dentes 
que nos fale porque bichos

nenhum deus que nos guarde e livre
dessa falta que leva ao fundo
desse fundo que fala à pedra 

nada há que levite

domingo, 29 de março de 2015

Para Said


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foi como aquela tarde em Gaza

eu dizia: corra, Ahed
não morra, Zakari
a morte, Mohammed
é um estrondo que vem do mar





terça-feira, 24 de março de 2015

Reza


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a boca aberta, as mãos
os olhos, as dores que ergue
e faz pender entre os braços

a palavra deus devolvida
à mecânica da língua

a pele fina dos pés
aos desejos do fundo

sábado, 14 de março de 2015

Bordas

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dizer do amor que nada se move
como naquela fotografia:

o lago do dragão, as velhas pontes
um Fuji-Sama de mentira
ardendo pequeno, desacordado
(impossível saber se sorríamos)

dizer, amor, que nada comove tanto
como os carros quando deitam suas luzes
sobre as frestas de um teto lento, insone

é quando tua falta me come
sórdida e vagarosamente
soprando a noite pelas bordas

quarta-feira, 11 de março de 2015

Garras

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dora não sabe do risco vermelho 
no canto da minha boca

não pesa quando anda
não sofre suas garras
não crê que bendigo a casa
beijando a jaula, os demônios

dora, esse risco vermelho
essa dor de papel cortando
o canto da minha boca

mal vê que atravesso a sala
o corpo coberto de chamas


domingo, 15 de fevereiro de 2015

Retrós


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o modo como partia
as pedras contra o peito
a desrazão ordenada
em pequenos cilindros
- uma delicadeza de retrós

partia, de todo modo
peito cravado de pedras
fios arrancados miudinhos 
cuidadosamente descosidos

como o que de nós 
desapareceu entre os sargaços

terça-feira, 13 de janeiro de 2015

Olaria

Imagem retirada do site http://osaberdaterra.blogspot.com.br/


eu falava sobre o amor
rumor de assombro e leveza
palavra plena palavra ausência
o barro antes das mãos

foi quando vi meu avô oleiro
a água compondo a massa 
o fogo contendo a água
as casas tomando forma

eu falava sobre você e o amor
e os olhos de meu avô alfarero
o barro forjado dentro 
o tempo antes das mãos

segunda-feira, 5 de janeiro de 2015

Aquele fevereiro em Zurique

Aglaja Veteranyi - Imagem retirada do Google
Para Aglaja Veteranyi, poeta romena falecida em 2002


pensei ter ouvido o corpo de Aglaja
tocando delicadamente o rio

pensei ter visto sua mala e todos os sapatos
(cinco ou seis pares intercalados às bonecas)
ou foram seus dedos brandos, cansados
cravando em meu peito a placa que dizia 

céu aqui

não é o caso de rima, Aglaja
mas naquele fevereiro em Zurique
é triste e certo que sorri