terça-feira, 21 de fevereiro de 2017

Brio

Imagem:
Illustrated London News, 1915. (Photo by Hulton Archive)

Para Ana

é verdade que ainda sangro
e que às mulheres
por brio ou obscuridade
é dado sangrar em silêncio

mas veja minha irmã e eu:
a carne exaurindo a noite
as luzes todas acesas
o coração ruidoso

se agora canto
é porque desaprendi
a morrer primeiro

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

Roda

Marcel Duchamp - Roda de Bicicleta (1913)


há este pequeno círculo 
de lábios e pernas
girando as horas
acima de teus ombros

são duas, três voltas
mil vozes nuas
mil passos cegos
a dar em coisa alguma

deste pequeno círculo
sou o furo, a sombra
o olho que cobre a fresta

não sei se escapo
ou espio o mundo

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2017

Moedas

Google - sem informação de autoria


inútil dizer da escuridão
a forma como afirma sua solidez no mundo

agora, por exemplo
um menino grita 
à mulher que o deixa
entre rastros de silêncio

agora, tão perto
o menino chora
e atira pro alto 
um punhado de moedas
- não preciso delas, ele diz
não preciso, filha da puta

inútil dizer que a cidade vive
quando o que mais me invade
é o cheiro tardio dos peixes

sábado, 4 de fevereiro de 2017

Folha

Imagem: Daniela Delias


não diríamos nada
sobre os velhos talheres
ao lado da carne nova
que devoraríamos aos poucos

mas ele sabe: nada nunca é novo
nem esta minúscula folha
nascida agora no alto do tomateiro
nem esta ilusão ruidosa de concha
sobre o mar que nunca estará

e entre todas as coisas não ditas
haveríamos de romper a carne
e erguer antigos copos
enquanto pudéssemos calar
ao beber das mesmas vinhas