sábado, 21 de julho de 2018

Quarto


ele acorda
em uma cidade
que não é sua

do outro lado da vidraça
imensas colunas de concreto
devolvem centenas de janelas
por onde vê
um pequeno sol
entre as colinas

as coisas são o que são
e é certo que o compreendem

nós, que não somos
não sabemos
que agora
por exemplo
ele se ocupa
de soprar a vidraça
e de mantê-la
entre os lábios
e o ar frio que respira
(é quando escreve
repetidas vezes
o nome que o tem)

a cidade acorda
em um homem
que não é seu

sábado, 19 de maio de 2018

Palavra

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à espera de um nome
a coisa de mãos imensas
e olhos extraordinários
desprende-se dos ossos
e espalha pela garganta
a sede de que é feita

digo a ela: um nome,
meu bem, é nada
é sebo de vela no copo
estrada sumindo no olho

a água da chuva
é que inventa o cântaro

palavra
a gente inventa pra silenciar


sábado, 14 de abril de 2018

Transiberiana


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quando chove
penso em fechar a porta
dar vez ao peso
cobrir as frestas
até o osso
mas a verdade
é que poetas mentem
sei porque dormi no trem
e acordei em Vladivostok
saltando toda janela
varrendo todo entulho
abrindo toda saída
te vendo no fim do mundo


quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Inverno


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cortinas segredam desejos
biombos separam silêncios
espelhos saúdam desertos

há casas
que guardam um inverno


Aldeia


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é preciso que o poema
atravesse de vez a noite
e possa enfim dizer das pedras
que eu guardava entre os dedos
e deixei sobre o chão 
de minha aldeia

há tempo que não espero
um céu de delicadezas
sobre os meus ombros
mas neste exato instante
tenho os olhos bem abertos
e o coração perto do fogo

há flores que pedem
um cubo de gelo
em troca de permanência

eu só peço 
alguma sede
alguma sorte
e todo espanto

terça-feira, 6 de fevereiro de 2018

Pele


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a verdade
é que meu ombro não comporta
um pássaro negro

já tenho este mapa
tatuado em minhas costas
este céu de linhas vermelhas
este corpo tornado templo
de todo desejo e selvageria

e você sabe:
palavra alguma detém a jaula
palavra alguma impele o voo
palavra alguma alcança a porta

é sempre do olho o último grito 

sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

O impossível

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em algum lugar
deste minúsculo planeta
os dias são mais secos
e o amor já não corta tão fundo

aqui, no entanto
demora-se o fio sobre a palavra
avulta-se a língua sobre o fogo
(é quando chove torrencialmente)

em algum lugar
deste nosso imenso universo 
estende-se tórrido
abrasa-se breve
desfaz-se esplêndido
o impossível planeta