sexta-feira, 13 de dezembro de 2019

Fúria


sobrevive-se à fúria extrema das manhãs
à memória das portas que abríamos em silêncio
desejando que o amor nos ensinasse a cair

não tão alto, dizíamos
não tão longe

depois, alinhávamos as pernas
estendíamos mil pontes
e partíamos e partíamos
como se destinados ao cume

sobrevive-se, suponho
às cidades exiladas de nossos olhos
e à lembrança das janelas
que encostávamos um pouco
toda vez que distraíamos a morte

quarta-feira, 24 de julho de 2019

Desterros


se todas as previsões estiverem corretas
amanhã ainda teremos chuva
e milhares de mulheres e homens 
partirão de seus desterros
sorrindo ferozmente pro escuro

que importa se um homem de olhos terríveis
afunda suas garras e botas
contra seus rostos insones?

se todas as previsões estiverem corretas
amanhã não comerão os restos
não descerão aos fossos 
não dobrarão os joelhos
a um deus que fale tão pouco

quarta-feira, 20 de fevereiro de 2019

Caixa


desinventar a estrada
que vai dar nas mesmas ilhas
partir com os dedos
as ruas que vão restando
reter entre os lábios
o mapa onde escondíamos
a palavra eletricidade
dizer outra vez teu nome
e te ver guardar o meu
entre as coisas mais selvagens


sábado, 2 de fevereiro de 2019

Chá



o sol se escondendo entre os prédios
a carta ascendendo à memória
o ar a pele o chá o cheiro
a exata temperatura da água

meu amor, meu amor, você diria
minha palavra posta em tua boca

o sol sumindo entre as árvores
eu acenando entre os pássaros
você na outra plataforma